Gente

“Gente é mais ou menos como rio:

Tem os que gostam de perigo e se lançam de grandes alturas

Tem os de muitos braços que atiram pra todos os lados

Tem os de muitos redemoinhos que comem bois e gente

Tem os que gostam demais de si e viram lago

Tem os que só sabem correr parados

São os empoçados os pantaneiros os alagados

Tem os que transam com a terra formando ilhas

O fundo de alguns é de pedra. Tem os de peixes coloridos

Outros têm água clarinha. E tem gente córrego seco

E tem gente riacho escuro. Alguns a terra engole vivos

E tem até rio que corre pra trás

O rio que eu sou nasceu em janeiro

Tem gente que tem o costume de vazar pelos cantos.

No começo vaza calada. Aos poucos. Aos pingos.

Mas se pega gosto principia o derrame.

Escorre quando fala. Escorre quando anda.

Não tem mais braço nem cabelo que segure.

Parece que vicia em ficar transbordada.

Mas tem gente que quando transborda é pra dentro

E corre o risco de ficar represada. E represa, você sabe.

Se aumenta muito arrebenta.

Mas se a pessoa ensaia um jeito de derramar pra fora

Aí vai fazendo leito. Vai abrindo seu caminho na terra

E a terra parece que se abre para ela passar. Às vezes não.”

Viviane Mosé

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