Maldita solicitude – por Ivan Martins

“Amar, para um monte de gente, significa fazer a vontade do outro.

Não apenas viver a vida que o outro deseja viver, ocupando nela o papel que o outro designar, mas estar atento, a cada momento, adivinhando e atendendo as vontades não expressas dele ou dela.

Essa é a maldita solicitude – a de um ser humano cuja vida afetiva se resume a preencher a existência do outro.

Cada um de nós, eu imagino, poderia contar várias histórias sobre casais assim, gente que nos faz pôr a mão na cabeça e perguntar: Meu Deus, por que ela (ou ele) faz isso, por que renuncia tanto, por que se coloca nessa situação em relação ao outro?

Acho, também, que cada um de nós poderia olhar para si mesmo e perguntar, também com a mão na cabeça: por que eu me comportei de forma tão subalterna? Por que, em vez de tomar as minhas decisões, eu esperei que o outro as tomasse por mim?

Por que eu, apaixonado, ou apaixonada, vou me transformando, sem perceber, e quase involuntariamente, numa sombra da pessoa que eu amo ou admiro?

Essas são perguntas difíceis, mas talvez devessem ser feitas.

Muitos relacionamentos se esgotam porque, dentro dele, alguém abre mão do seu desejo e da sua personalidade, deixando ao outro a tarefa de pensar e sentir por dois.

Com o passar do tempo, quem abriu mão se ressente do que perdeu, e quem ficou tomando conta de tudo se cansa e se entedia da tarefa.

Com todas as dificuldades, acho importante que haja, dentro dos casais, um esforço permanente de independência e autonomia.

Não estou falando de relação aberta ou de casas separadas. Essa não é a minha praia e nem a minha experiência, embora não tenha nada contra.

Falo de manter, dentro do namoro, dentro do casamento, um espaço suficiente de individualidade, mesmo para a frustração e o sofrimento.

O seu parceiro ou a sua parceira não é um bebê. Ele ou ela pode aguentar uma chateação, pode lidar com uma tristeza, tem capacidade para resolver sozinho ou sozinha ou seus problemas básicos.

E isso vale também para você.

Se a pessoa que a gente ama pede ajuda, se ela está precisando de amparo afetivo ou apoio prático, nada mais natural que ajudar. Mas isso não significa tornar-se o faz tudo da vida do outro.

Conheço casais em que a mulher administra TODA a agenda da casa, inclusive dos compromissos e pagamentos que dizem respeito ao marido, assim como conheço casais em que o sujeito toma TODAS as decisões importantes.

Por que isso? Ansiedade.

Se a gente acha que o parceiro está angustiado demais com alguma coisa, e não vai dar conta de fazê-la ou de suportá-la, parte em missão de salvamento.

Mas, em muitas dessas ocasiões, quem não aguenta esperar somos nós, não o outro.

Se a gente aguentar o tempo do outro, se suportar vê-lo frustrado e sofrendo, se a gente não entrar em pânico, é bem capaz que ele ou ela encontre uma solução para os seus dilemas e, ao fazer isso, se sinta bem consigo mesmo, e não apenas grato (e meio envergonhado) pela nossa providencial intervenção.

Se isso lembrar a você os dilemas da relação da mãe com sua criança, não é coincidência: acho que é daí mesmo, dessa relação fundadora da nossa vida, que surge e se alimentam essas confusões emocionais.

Sem pensar, a gente trata o parceiro como bebê, ou exige ser tratado por ele como uma mãe desvelada.

Uma parte do casal está disposta a sacrificar-se ao infinito e ser tiranizada pela vontade do outro; a outra exige ser atendida em seus mínimos desejos, e adora exercer poder sobre a outra pessoa.

Pode funcionar, mas não me parece uma relação saudável.

Talvez seja importante se esforçar para continuar a ser um indivíduo, optando, a cada momento, por estar com outro indivíduo, e ser parte da vida dele.

Entendem?

Eu adoro, e sei que muitos adoram, ser a metade da laranja de alguém. O sentimento de complementaridade é uma delícia. A parceria nos preenche e nos revigora. A sensação de ser parte de algo, de uma unidade afetiva, é, para mim, insubstituível.

Mas isso – mesmo isso – tem limites, e não pode ser obtido ao custo de sacrificar a própria personalidade, ou de esmagar a personalidade do outro.

Se você está solícito demais, se PRECISA oferecer alguma coisa a cada instante (coisa material ou subjetiva), se fica aflito tentando adivinhar o que ele está querendo, ou por que ela parece amuada, ser não se aguenta de angústia diante do menor sinal de insatisfação do outro, alguma coisa está errada, e não é com ele ou com a vida dele, né?

Enfim, acho que vocês entenderam.

A solicitude pode ser uma praga – e é bom lembrar que ela não se aplica apenas à vida amorosa.

A gente vive dizendo sim quando deveria dizer não. No trabalho, na família, com os amigos, aos estranhos.

Muito frequentemente a gente aplica às relações amorosas as mesmas fórmulas que usa para se relacionar com o resto do mundo.

Quando morremos de medo de desagradar, quando queremos desesperadamente que nos amem, corremos o risco de nos tornar criaturas excessivamente solícitas – e sacrificar um pedaço enorme de nós mesmos para cuidar, desnecessariamente, da felicidade daqueles que amamos.”

Ivan Martins é jornalista
Imagem: Pinterest

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s