“Desculpe, vou furar” por Ivan Martins

Texto parcial do artigo do autor

“Tenho certeza que esse comportamento frívolo tem menos a ver com quem o sofre e mais com a cabeça de quem age assim. É um problema pessoal, que se insere num quadro coletivo. Faz parte dos tempos esquisitos que vivemos.

Parece que boa parte do mundo fez 10 anos de psicanálise ruim e concluiu que a única coisa que importa é sua vontade imediata. Os códigos de conduta que regem as relações pessoais são abandonados em nome do desfrute instantâneo: marquei com você, mas apareceu algo melhor, tchau! Estava com ela; mas pintou uma mulher irresistível, fui! Tínhamos um compromisso, mas deu vontade de fazer outra coisa, lamento!

As pessoas, na verdade, não sabem o que desejam, por isso oscilam em suas vontades feito pêndulo de relógio. Estão perdidas em meio a um surto geral de histeria que atinge homens e mulheres e rivaliza com o H1N1.

O cara acha bacana a moça com quem saiu na balada, mas, tão logo aparece outra mais bonita, ele tem vontade de trocar. Como não dá para fazer isso (embora uns caras tentem) ele fica emburrado, frustrado, e começa a tratar mal a moça que está com ele, porque a presença dela o impediu de ser feliz. Já presenciaram esse tipo de cena? É típica entre adolescentes de 15 a 60 anos.

Marcar um compromisso e mudar de ideia na última hora revela o mesmo mecanismo. Quando combina, a pessoa está curtindo a ideia de sair com Fulano ou Beltrana. Mas aí começam a aparecer outros programas, outras possibilidades, e aquele desejo inicial vai perdendo o foco e enfraquecendo, até que vira uma repulsa tediosa. Então a pessoa se evade.

Anote: sempre haverá uma coisa melhor a fazer para quem não sabe o que fazer, para quem não sente o que deseja.

Tenho a impressão que viramos um planeta de crianças mimadas. De várias cores, idades e religiões. Queremos tudo a cada instante, mas logo enjoamos do que quer que seja. Não existe uma norma clara e um limite ao nosso prazer. Podemos tudo e desejamos tudo, aqui e agora. Quando nos frustram, deitamos no chão, berramos e esperneamos, certo? Estranha encenação de vida adulta.

Também existe em nosso meio um sentimento permanente de solidão. Estamos cercados de gente, mas, ainda assim, um bicho de dentes enormes nos consome internamente. Nossa voz interior nos apavora. Então marcamos mais coisas, chamamos mais pessoas, combinamos de sair com mais desconhecidos – mas, lá no fundo, algo em nós se rebela contra as aspirinas inúteis. Na hora de aparecer, comparecer e estar presente, damos para trás, mudamos de ideia, corremos em outra direção: “Vou furar, desculpe”.

Apesar da falta de educação e dos filmes que se vai queimando no caminho, não haveria nada de errado com esse esse jeito de proceder se ele funcionasse para genuíno contentamento das pessoas que o praticam. Mas não funciona. Não me parece que as pessoas que agem assim sejam mais felizes do que as outras. No longo prazo, quem faz as coisas direito ainda se dá melhor. Quem respeita, cuida e se preocupa em manter compromissos, projeta uma imagem que atrai mais gente – e gente de melhor qualidade, com mais autoestima.

A decisão inconsequente de curto prazo, o trato leviano com os outros, isso tudo funciona para relações relâmpago, mas tem custo social elevado. Ao menos é isso que sugerem antropólogos e psicólogos. Eles dizem que vivemos numa sociedade de reciprocidades. Atitudes egoístas causam ressentimento e provocam isolamento, que é tudo o que as pessoas estão tentando evitar.

Mas isso tudo, francamente, é uma conversa longa demais para um problema simples.

A verdade é que gente que desconsidera os outros – qualquer outro – é apenas um saco. Quem marca e não vem, quem convida e não vai, quem fura, dá bolo e finge de morto não tem absolutamente nada a ver. Pode arrumar para si mesmo as desculpas que quiser, mas comete uma puta grosseria. É simples assim. Se os que agem dessa forma são 10% ou 70% das pessoas adultas, não faz a menor diferença: um monte de gente procedendo errado não fará o mundo dar certo, nem que isso vire a norma.”

Ivan Martins é jornalista e esse artigo foi publicado na revista Época.

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