Marido de verdade

MARIDO DE VERDADE 800mg, TRÊS VEZES AO DIA ENQUANTO HOUVER SINTOMAS

“Bom dia, doutora. Vim por que preciso fazer alguns exames. Desde o nascimento da minha filha não voltei mais ao médico.”

“Certo… Alguma preocupação mais específica? Como tem se sentido?”

“Esgotada. Muito cansada. Pode ser que seja anemia ou tireóide.”

“Pode ser… me fale um pouco mais sobre a sua rotina.”

“Só cuido da minha filha, doutora.”

Seu nome era Débora. Tinha olheiras como as minhas e um olhar triste e desanimado. Engenheira, 34 anos, se equilibrando para não deixar escorrer a lágrima que enchia seus olhos.

“Só?!!”

“Só. Parei de trabalhar. Minha vida atualmente é cuidar do meu filho e da casa.”

“E como tem sido isso pra você?”

“Tenho me sentido muito mal, doutora. Dores no corpo, sono horrível. Acordo de manhã como se não tivesse dormido. Choro muito e me sinto presa em casa. Não tenho saído nem pra fazer compra no supermercado. Unha, cabelo, não faço nada.”

“Você é casada?”

“Sim. Meu marido trabalha, chega em casa às 6 e acha um absurdo eu estar cansada e mal humorada já que passei o dia todo só cuidando da casa e da nossa filha. É incapaz de dar um banho, de esquentar uma comida, de organizar uma mesa. E acha ruim quando eu deito na cama e durmo ou quando eu digo que estou cansada e não quero sair nos finais de semana.”

“Alguém te dá um suporte? Alguém fica com sua filha quando você tem um compromisso?”

“Eu não tenho compromissos, doutora.”

Débora estava por um triz. Incapaz de conversar sobre seus sentimentos em relação a filha. Sempre desviava do assunto. Não por desamor, mas pelo peso da solidão materna que experimentava. Cada vez mais distante do marido, se aninhou nessa tristeza, mas, por algum motivo, bateu em minha porta pra pedir ajuda.

“Sabe, doutora, tenho proposta pra voltar a trabalhar. Minha filha está se adaptando a escola e hoje eu tenho algumas horas do dia pra fazer as minhas coisas, mas ando sem coragem. Fico me perguntando quando eu vou conseguir me organizar pra retomar meus projetos. Quando a vida vai se organizar pra eu voltar a fazer uma academia, voltar a trabalhar…?”

“Eu acho que eu tenho uma resposta: Nunca.”

Ela arregalou os olhos.

“A cada fase há um novo desafio. As coisas não ficam mais fáceis, pelo contrário. E parece que você está sozinha nessa.”

“Mas eu estou esgotada, doutora. Eu preciso de um remédio, um calmante, qualquer coisa pra eu não ficar doida.”

“O que você acha que o remédio poderia fazer por você?”

“Não sei. Me deixar mais calma, melhorar essas dores no corpo, essa tristeza, esse desânimo. Eu tenho uma casa inteira pra arrumar sozinha, almoço pra fazer…”

“E por quanto tempo mais você acha que o remédio te ajudaria a se anular e aguentar essa vida sem alegria, sem apoio, sem esperança?”

Débora abaixou a cabeça. Parecia nervosa e insatisfeita com os meus questionamentos.

“Não sei. Eu só sei de agora. E agora eu preciso de um remédio.”

“Também acho. Só acho que precisamos pensar em outras estratégias, pois o remédio sozinho não vai levantar e resolver essas questões.”

Débora chorou. Muito. Sem disfarce.

“Eu precisava era de apoio, sabe, doutora. Eu olho no espelho e não me reconheço.”

“Quem você via antes no espelho?”

“Eu era uma mulher dinâmica, ativa, alegre. Meu marido sempre foi essa planta, mesmo, mas eu nem ligava. Tava sempre arrumada, gostava de trabalhar, fazia projetos sociais, fazia ginástica, corria. Hoje eu me vejo uma morta-viva.”

“O que você acha que precisa fazer? Quer pensar em algumas possibilidades?”

“Não consigo pensar em nada, doutora.”

“Débora, eu tenho uma filha de um ano. Ela é super tranquila. Meu marido é parceiro, minha mãe, minha irmã, minha amiga me ajudam de verdade, e, mesmo assim, eu estou morta de cansada! Veja: eu tenho muito apoio e ela só tem um aninho. Você está há quase 3 anos nessa rotina louca. Sozinha! Acho que a primeira coisa que precisamos fazer é construir uma rede de apoio pra você ter um respiro!”

E ela sorriu pela primeira vez.

“Como está a situação financeira de vocês?”

“Está razoável.”

“O que você acha de uma pessoa para te ajudar com a limpeza da casa duas vezes por semana?”

“Eu acharia ótimo! Como não pensei nisso antes?”

“É que quando a gente tá mergulhado no caos, a gente não para pra pensar nas soluções.”

“Lá perto da minha casa tem um restaurante muito bom. Eu tinha até pensado em almoçar lá com a minha filha pra não ter que cozinhar quando eu voltasse a trabalhar.”

“Acho uma boa saída.”

“Eu estava com muita dó de deixar minha filha mais tempo na escola, mas eu fico pensando: com meu marido não posso contar. E eu preciso voltar a cuidar de mim, sabe, doutora. Eu ando tão triste que nem tenho paciência pra conversar com ela, pra interagir.”

Exames pedidos, medicamento escolhido, estratégias anotadas em um papel, encaminhamento para psicoterapia sugerido e aceito, atestado para academia solicitado pela paciente, retorno marcado, me levanto para acompanhá-la até a porta.

“Sabe, doutora, eu fico triste quando eu penso que tudo isso poderia ser evitado se meu marido fosse realmente um companheiro. Se ele dividisse comigo as obrigações e não empurrasse tudo pra cima de mim com a desculpa de que eu não estou trabalhando fora. Eu tô bem achando que o que eu preciso mesmo é de um marido novo. Um de verdade ».

Fonte: Facebook da médica Júlia Rocha

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