Aprenda a ser imperfeita – por Nathália Carapeços

É só abrir o Instagram e passar o dedo na tela que o mundo ideal se desenha em frente aos olhos. Dar conta da casa, dos filhos, manter um casamento com jantares românticos e ainda trabalhar no emprego dos sonhos parece ser moleza quando se resolve prestar atenção nas postagens alheias. Algumas influenciadoras digitais são exemplos de determinação: acordam todos os dias às seis horas da manhã para malhar e preparar as refeições da semana. Outras gravam vídeos mostrando a rotina com os filhos – e é impressionante como têm o controle da situação, já que as crianças nunca fazem birra. E mesmo quando a foto vem com a hashtag “sem filtro” (ou seja, tal qual como foi tirada), o visual continua sendo de uma mulher em forma, com a vida perfeita, plena e feliz.

– Tem dias que vejo nas redes sociais que todo mundo está saindo, e eu estou em casa. Daí tenho que cuidar para não ficar comparando, se não dou uma surtada. Olhando alguns perfis de mães, penso: como ela consegue fazer isso com a criança? Mas é em alguns momentos específicos, né? Não é o tempo todo. Tenho que me lembrar disso. Acompanho perfis de mães e já me dei conta de que não vou conseguir aplicar tudo com meu filho – desabafa Gisele Mendes, de 35 anos, contabilista que curte ficar de olho na timeline.

O que a vida editada das redes sociais não mostra – e que Gisele e todas nós experimentamos na prática – é a sensação de esgotamento da mulher real. Aquela com uma rotina pesada e repleta de tarefas, que se sente culpada por não conseguir ir à academia, por não vestir uma calça número 38, por ter se esquecido de comprar o suco de laranja do filho, por não fazer hora extra no trabalho porque precisa buscar a filha na natação, por não conseguir ter o corpo que tinha antes da gravidez e por aí vai. Uma pesquisa de opinião da revista britânica Stylist, por exemplo, apontou que 96% das mulheres se sentem culpadas pelo menos uma vez por dia, e metade delas mais de quatro vezes diariamente. Entre os motivos para tanta culpa estão: não comer de forma saudável, não ter tempo para a família e negligenciar o trabalho. Elas fariam parte de uma geração de mulheres que já tem até nome, a GAT (guilty all the time – culpada todo o tempo, em tradução livre).

É justamente esse o sentimento de Gisele ao fim de cada dia. Dela e de outras leitoras da Revista Donna que foram convidadas a compartilhar seus depoimentos sobre o desafio de se aceitar imperfeita – as opiniões foram publicadas por participantes do Grupo de Mães Donna e do Grupo da Beleza Donna, ambos no Facebook. No caso de Gisele, a rotina – que inclui trabalho, casa, filho, marido, academia, faculdade – leva ao cansaço, mas o desgaste emocional está ligado diretamente à maternidade.– Deito a cabeça no travesseiro e nunca me sinto satisfeita com a minha performance. Todo dia, tenho que dizer para mim mesma que isso é normal, que fracassar é normal. Meu filho não está comendo muito vegetal, isso me frustra. Ele não gosta de tomar banho de chuveiro, tem medo. Fico perguntando se é culpa minha. Na hora do Parabéns do aniversário dele, ele berrou o tempo inteiro. Me cobro muito – explica.
A antropóloga Mirian Goldenberg acredita que, especialmente no Brasil, a mulher vive a cultura do “e” ou da “soma”. Não se pode fazer escolhas: para ser o perfil ideal é preciso dar conta de tudo.
– Na Alemanha, por exemplo, existe a cultura do “ou”. Pode casar e ter filhos, pode não casar e ter filhos. Vejo lá uma cultura de escolhas, de priorizar algo. Aqui, as mulheres não trabalham muito com isso, somam. A brasileira ideal é a que trabalha, tem filhos, é magra, superconectada, tem marido, amigos, cuida de todos, da casa. Escolher não é legítimo socialmente e acaba sendo internalizado. Só se é feliz e realizada assim. Torna-se quase uma obrigação e, se não consegue, se sente uma fracassada – explica Mirian. – Existe uma idealização de que é possível cobrir todas as áreas sem pagar um preço muito alto. É alimentado por imagens de mulheres que conseguem fazer tudo isso, mas, se for olhar de perto, elas não são assim, estão sufocadas, arrasadas, com pânico de perder o marido, o emprego, pânico de engordar. A felicidade idealizada traz muita insatisfação.
E os papéis a cumprir para alcançar o status de mulher perfeita não são poucos. Uma pesquisa feita pela empresa Mindminers revelou que apenas 5% das mulheres com empregos formais não se dedicam a tarefas domésticas. A rotina semanal é, em média, 40 horas passadas no escritório e outras 10 horas voltadas à casa e aos cuidados com a família. E mais: 1/3 das entrevistadas afirmou que já teve sua capacidade profissional rebaixada apenas por ser mulher. A professora Jane Felipe, integrante do Grupo de Estudos de Educação e Relações de Gênero, da UFRGS, acredita que a famosa “dupla jornada” feminina, na verdade, pode ser desdobrada em pelo menos oito funções que demandam investimento afetivo e de tempo:– Nós somos educadas para atingirmos a perfeição, há cobrança de ser multitarefa. Boa aparência, ótimas administradoras do lar, excelentes profissionais, ótimas companheiras, excelentes mães, alunas que dão conta de tudo, cuidadoras dos pais e dos netos. Não cabem tantas tarefas em 24 horas, a gente precisa entender quais são as nossas limitações. O desafio é lidar com nossos limites.

A dentista Thaís Thomé dá aulas em uma universidade, tem uma filha, é casada, mantém um canal no YouTube e faz exercícios. Aos 40 anos, diz que adquiriu maturidade para aprender a lidar melhor com o desgaste da rotina. Tenta priorizar o tempo com a família de forma racional, mas a batalha é diária: se algum contratempo atrapalha a agenda e sobram menos horas para preparar uma aula a culpa vem com tudo.

– Sinto a autocobrança do “eu tenho que dar conta de tudo”. O meu trabalho exige bastante, levo trabalho para casa, corrigir prova, orientar, criar testes. Me cobro para ter a melhor aula, tento atualizar sempre os materiais. Mas, quando o tempo não me permite, não posso negar que me pesa. Se acontece algo e não consegui fazer a aula como queria, já chego pedindo desculpas para os alunos. Me cobro muito – admite Thaís.

Doutora em psicologia pela PUC-SP, Lígia Baruch encara a autocobrança feminina como um problema político e social. Os homens não sentem a mesma culpa pois as cobranças sociais não perpassam todas as áreas da vida deles, avalia:

– Com a emancipação feminina, a mulher entrou em um paradoxo. Antes, tinha uma divisão de esferas. A esfera doméstica era a feminina, e a do trabalho e do dinheiro, a externa, seria a masculina. A entrada da mulher no mercado de trabalho abriu novos horizontes para ela, mas a esfera da casa não foi dividida de igual para igual com os homens. A mudança do papel da mulher é ótima, o problema é que não houve suporte. Ela se sente sobrecarregada, incapaz, se culpa por não dar 100% sempre, tenta priorizar os filhos e desiste de algumas áreas da vida. Desiste de crescer profissionalmente, abre mão daquela promoção.

No fim das contas, é uma pressão social que é internalizada pelas mulheres. E nesta sociedade competitiva, pondera Lígia, as redes sociais exacerbam a comparação. Claro que há um imaginário sobre essa mulher perfeita estruturado culturalmente, na literatura, na TV ou nas comédias românticas, mas hoje experimentamos também as consequências desta hiperexposição, como explica a psicóloga:

– Tudo isso gera ansiedade, depressão, culpa, sentimento de fracasso. O que aparece lá é o que está bonito, o que deu certo. Já há até um contramovimento, as pessoas estão saturadas, tentando falar mais do lado B. Blogs e perfis de maternidade e até atrizes que estão tentando abrir o jogo. As pessoas olham as redes e pensam: como consegue trabalhar, viajar, cuidar dos filhos e ainda tomar vinho com o marido? As mulheres olham para isso e se questionam. É preciso refletir e tentar ter mais carinho consigo mesma, selecionar prioridades.

Quando o assunto é o cuidado com o corpo – e a culpa por não dedicar tempo e esforço para tanto –, vale lembrar que não faltam nas redes sociais as blogueiras fitness. A advogada Márcia Fortes Garcia, 41 anos, sabe bem o que é a cobrança para estar dentro dos padrões. Esbelta e vaidosa, ela viu o ponteiro da balança subir após a separação. Uma disfunção hormonal a fez engordar 20 quilos e sua relação com o corpo se tornou um ponto ainda mais vulnerável.

– Já passei por lipoescultura e redução de mamas. Após a separação, estava deprimida e comendo muito mais do que antes, mas também tinha a questão hormonal. Daí comecei tratamento, dieta e exercícios. Hoje, posso dizer que estou feliz. Claro, se pudesse tirar umas rugas, algum cabelo branco… Mas não estou bitolada nisso. Sinto culpa quando saio da rotina, nem só pela estética, mas porque descarrego as energias com o exercício. Minha corrida faz bem para mim, se não vou, fico culpada. Não é só sobre o corpo, é sobre se sentir bem – conta Márcia.

Para a psicóloga Elaine Di Sarno, entre todas as cobranças sociais que acometem as mulheres, a busca pelo corpo perfeito está entre as mais impiedosas:

– É impossível não ser faltante nessa área, somos seres humanos. É uma cobrança cruel porque vai contra o tempo, as mulheres envelhecem, as pessoas ficam velhas. Essa ideia irreal de um corpo sempre jovem e dentro de padrões inalcançáveis gera uma baixa autoestima e pode levar a transtornos mais graves.

 

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