POR QUE SAÚDE NÃO COMBINA COM SACANAGEM pela médica Júlia Rocha*

Acompanha meu raciocínio. Na lógica capitalista, quanto mais escasso um produto ou serviço, mais caro ele se torna. Então, se eu fabrico apenas dez unidades de um modelo de carro luxuoso, o preço dele, já podemos imaginar qual será.

Até aí, tudo bem. Quem quer e pode comprar, compra. Quem não pode vai de ônibus, de táxi, de moto, de bicicleta, a pé, nadando, ou compra um carro usado, popular dividido de quinhentas prestações.

A sacanagem é quando se faz isso com assistência à saúde. Através de uma informação distorcida, desatualizada, sem qualquer embasamento científico, contradizendo o que se faz e o que se discute no mundo inteiro você questiona a capacidade de médicos de família bem formados e capacitados, e que trabalham dentro das unidades de saúde do SUS, de exercerem plenamente suas habilidades no cuidado de crianças, mulheres, na solução de problemas ginecológicos, colocando DIU, tratando dores pélvicas e tantas outros problemas, no cuidado de adolescentes e adultos, no cuidado de idosos, de pacientes adoecidos de câncer , de Aids, fazendo bons diagnósticos e tratando adequadamente doenças que antes eram tratadas por outros especialistas, encaminhando apenas os casos que devem ser encaminhados, sendo resolutivos e muito mais custo-efetivos.

Sabe como se chama isso? Reserva de mercado. É usar uma lógica perversa que só enxerga dinheiro, limitando o acesso das pessoas aos serviços de saúde e criando assim uma ideia de escassez para aumentar o preço do serviço que se oferta.

Bons especialistas, atualizados e estudiosos sabem que a equipe da estratégia de saúde da família, juntamente com a equipe multiprofissional do NASF e da saúde mental é capaz de resolver satisfatoriamente a maior parte das demandas de saúde que chegam até a unidade.

Falar que crianças “são” dos pediatras, que mulheres “são” dos ginecologistas, que pressão alta é do cardiologista, que diabetes é do endocrinologista, que pele é da dermato, que pulmão é do pneumologista e, por aí vai, não só está fora de moda como é prova de um profundo desconhecimento sobre medicina, sobre atenção primária à saúde, sobre redes de cuidado, sobre medicina baseada em evidências.

Recentemente disseram que o cuidado que prestamos às crianças na unidade de saúde compromete a qualidade da assistência. Ou seja, disseram que nós não somos suficientemente bons para este atendimento.

O que fazemos nada mais é que encaminhar ao pediatra apenas casos selecionados. Crianças que realmente precisam dos conhecimentos que são específicos desta importante especialidade.

Não. Segundo o que disseram, todas precisariam acompanhar com um pediatra. É sabido que não há especialistas em número suficiente para isso. Afinal, eles não devem se ocupar das crianças saudáveis, bem assistidas por suas equipes.

Você, inocente, há de me questionar:

Imagina, Júlia! São crianças pobres, muitas miseráveis. Seus pais não tem dinheiro pra pagar nem consulta nem fórmulas lácteas que custam cem reais a lata.

É exatamente aí que mora a questão. Cria-se uma massa de desassistidos. Cria-se a sensação de escassez desse serviço. O valor que a sociedade atribui a ele aumenta.

Pra finalizar, já me alonguei demais, vou dizer aqui o que sempre diziam pra mim quando eu estava começando a minha carreira depois da residência.

Quando eu dizia que cuidava de pessoas idosas, me diziam que se eu queria cuidar delas eu devia fazer geriatria, e assim por diante. Para cuidar das crianças eu deveria fazer pediatria. Das mulheres, gineco. Da pressão alta, cardio. Da lesão de pele, Dermato…

Então, eu respondo assim: quer prestar cuidados primários? Quer ser especialista em atenção primária? Quer cuidar e promover saúde na comunidade?

VÁ FAZER MEDICINA DE FAMÍLIA!

*Cantora,compositora,médica,mãe e doula.Esposa do Átila, amante do samba e mãe da Gabi.

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