Sobre estar sozinho ou sozinha por Anderson França

“Sobre estar sozinho, sozinha.

Eu fiquei sozinho, sem ninguém, por quase um ano.
Depois de me divorciar, fui morar num lugar, num morrinho, uma casinha. A sala era o quarto. E de tão estreita, não dava pra abrir o sofá-cama.

Acho que uma das piores dores na vida é uma separação. Eu, com 37 anos, tudo que eu tinha cabia numa caixa de papelão. Fiquei dias, semanas, meses, ali.

Estava sem emprego. Não tinha criado ainda a Universidade da Correria. Na verdade, no fim desse processo foi que eu criei.

Mas passei muitos dias, com dinheiro contado, apenas me isolando de tudo e todos. Comendo pouco. Eu fumava, na época. Emagreci uns 9 kilos, sem saúde. Tinha dias que eu sentava na escada de cimento, do lado de umas plantas da vizinha, uma senhora, e ficava ali, tarde, noite.

Via as pessoas voltarem do trabalho. Da escola. Jantarem juntas. Me culpei muito. Fui ensinado, na igreja, que casamento tem que dar certo. E eu não consegui. A igreja vende o casamento como um grande produto, e os divorciados são esquecidos, na verdade, são colocados abaixo de cachorro. Perdem status de gente, de humanos.

Você divorciar é um fracasso com Deus, com a comunidade, com a sua família, com a família do outro, com o outro, e com você mesmo.

Ninguém te poupa. Jogam em cima de você um peso.

Eu saí da igreja, naquele período. Ninguém me achava.
Eu não via ninguém. E os poucos que fui vendo, era porque precisava trabalhar.

Teve uma época que eu estava tão sozinho, que eu preenchi, no site da Gol, o telefone da barraca de lanches como contato de emergência. E fiz isso, rindo. Rindo, mas numa merda fudida.

Aprendi a rir da minha merda.

Ficar sozinho é uma dor sem tamanho.
Ninguém fica mais sozinho. Ninguém gosta. Ninguém se vê sozinho. Não é sobre você ter alguém pra transar, é sobre escolher passar um período sozinho, pra aprender algo. Pra rever questões. Pra se encontrar de novo. Em alguns casos, se encontrar pela primeira vez.

Nós estamos vivendo numa sociedade que abomina a solidão. Mas se não ficamos sozinhos, não crescemos.

Tudo precisa ser estar junto. Bar, cerveja, encontro, debate, filme, rua, samba, selfie. Um monte de gente sozinha, junta.

Eu queria te dizer que, se um dia restar de você ficar sozinho, pega isso. Acorda cedo. Fica. Fica acordada, lúcida, fica olhando o dia passar, escuta o cotidiano. A mãe chamando o filho pra jantar. Os mulekes terminando o jogo. As meninas brincando na calçada. A gargalhada dos velhos. O teu choro. A tua voz. Sem televisão. Sem internet.

Essa porra doída, que é a solidão.
Viemos sozinhos, e vamos sair daqui sozinhos. Mãe, cachorro, marido, esposa, companheiro, amigos, ninguém vai, na última hora. Só você.

Põe como uma possibilidade, o quanto antes, ficar sozinho um pouco. Um pouco por dia. Você vai precisar disso. Isso vai te fortalecer.

Eu fiquei sozinho um bom tempo. Carregava bolsas de compras pra mim mesmo. Numa rua vazia. Domingos sozinho. Almoçando e jantando sozinho.

Quando saí de lá, tinha criado a UniCorre. Um projeto que acabou mobilizando milhares de pessoas em volta de mim, nos anos seguintes. Criei força dentro pra isso. Escrevi livro, entrei pro Facebook, botei a cara no mundo.

De vez em quando, busco ficar sozinho. Me afasto.
Até pra rever o que estou fazendo, e onde estou errando.

Não fica com medo de ficar sozinho, com você.
Coisas muito importantes acontecem depois de uma solidão bem vivida.”

Autor: Anderson França (empreendedor social, escritor, professor, roteirista e ativista de Direitos Humanos).

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