Mulheres no mercado de trabalho: preconceitos implícitos por Alexandre Teixeira

“Você pensa que não é culpado de preconceito de gênero no trabalho? Então, pense de novo. Vícios implícitos e tendências inconscientes a favorecer uma coisa sobre outra podem ter consequências opressivas. Um guia patrocinado pela Prudential, uma seguradora, e publicado na série Quartz at Work, discute como podemos aprender a reconhecer e superar preconceitos, a fim de reduzir as diferenças de gênero no ambiente de trabalho. É um exemplo perfeito de branded content bem feito.

No ano passado, a revista Harvard Business Review (HBR) investigou uma empresa onde as mulheres representam apenas 20% dos cargos seniores. O objetivo era descobrir se as diferenças no comportamento de gênero explicavam as disparidades de promoção. Os pesquisadores examinaram diversas formas de interação entre os funcionários e levantaram a hipótese de que preferências explícitas, resultando em mulheres com menos mentores ou menos tempo de contato com seus gestores, explicariam as discrepâncias. Porém, ao analisarem seus dados, descobriram que os padrões de conduta e o desempenho de homens e mulheres eram indistinguíveis. E, no entanto, as mulheres não avançavam, enquanto os homens progrediam.

O que estaria acontecendo?

“Tudo se resume a preconceitos implícitos, que são nossas tendências inconscientes a favorecer uma coisa em detrimento de outra”, diz o texto publicado no site de notícias Quartz. “Tal realidade ajuda a explicar por que a maioria das organizações tem dificuldades para reduzir as desigualdades de gênero: não é suficiente para as mulheres competir e mostrar que elas são capazes.” Seguem-se as medidas sugeridas pela Prudential para enfrentar o problema com mais efetividade:

1. Saiba qual é a cara do preconceito de gênero

Um(a) jurista eminente identifica duas formas proeminentes de viés contra a mulher no ambiente de trabalho. Em primeiro lugar, cerca de 75% de uma amostra de mulheres descreveu-se andando numa corda bamba entre parecer feminina demais  ou parecer masculina demais no trabalho. Em segundo lugar, as mulheres são comumente percebidas como menos capazes em papeis “classicamente masculinos” – e isso é pior ainda no caso das mulheres que se tornam mães.

2. Se você é tendencioso e não sabe, faça um teste

A prova sugerida pela Prudential é o Implicit Association Test (IAT), criado em Harvard há 19 anos.

IATs para gênero capturam a velocidade de respostas que associam termos estereotipicamente masculinos e femininos, tais como “crianças”, “escritório”, “médico” e “enfermeira”, a pronomes como “ele” e “ela”, tocando teclas em um computador.

“Embora existam algumas críticas sérias à validade do IAT, os testes nos mostram quais associações automáticas aparecem antes mesmo de termos a chance de pensar”, nota o artigo. O histórico do IAT revela que mesmo gente esclarecida, que se considera imparcial, costuma ter vieses preocupantes. “Isso só é aceitável na medida em que falamos abertamente sobre os nossos preconceitos e impedimos que eles influenciem nossas decisões.” Dizer “todo mundo tem seus vieses” não é aceitável.

3. Lute contra todo viés que você vê, incluindo o(s) seu(s) próprio(s)

“Reconhecer seus próprios preconceitos (focados em gênero ou não) e tentar se proteger contra a sua influência é um bom primeiro passo. Mas, como é difícil até mesmo para as pessoas mais bem informadas manter uma perspectiva objetiva, é vital manter-se também mutuamente em cheque: recorra àqueles que estão sendo vítimas de preconceito”, sugere a Prudential.

4. Olhe além da diferença salarial

“A disparidade salarial é infame, mas é uma métrica incompleta pela qual podemos medir o empoderamento das mulheres no trabalho”, afirma o artigo. A Harris Poll, uma pesquisa da Prudential com milhares de funcionários americanos, olha além das diferenças salariais. Revela, por exemplo, que as mulheres estão poupando substancialmente menos para a aposentadoria do que os homens. E sugere que, “se os empregadores ajudarem as mulheres a se tornar financeiramente confiantes e seguras, elas estarão em uma posição de influência mais forte – e mulheres empoderadas nos empoderarão a todos”.

5. Persiga a tomada de decisão cega em termos de gênero

Oliver Staley, jornalista do Quartz, sugeriu recentemente como remover o viés do recrutamento: modere a linguagem (evite o uso de palavras masculinas como “competitivo” ou “assertivo”), desconfie de referências (enviadas por terceiros), tire o nome dos(as) candidatos(as) dos currículos, padronize entrevistas e tome decisões trianguladas com um grupo diverso de pessoas.

Várias startups surgiram para criar plataformas baseadas em dados que ajudam os empregadores a alcançar esse objetivo.

6. Ajude a aliviar os fardos injustos que as mulheres carregam fora do trabalho

Na empresa que a HBR investigou, as mulheres eram substancialmente mais propensas a deixar os seus empregos depois de terem estado na empresa por quatro a dez anos. Ora, se homens e mulheres são partes igualmente interessadas nas famílias, devem, presumivelmente, estar deixando a força de trabalho na mesma proporção. Só que isso, obviamente, não acontece.

Alguns fatos:

  • As mulheres gastam, em média, 65% mais tempo do que os homens em trabalho não remunerado, incluindo a educação das crianças e as atividades domésticas.
  • Elas representam dois terços daqueles que cuidam de parentes ou amigos idosos ou deficientes.
  • Carregam mais dívidas do que os homens – quase oito vezes mais no caso de mulheres de 57 a 61 anos de idade.
  • E são quase duas vezes mais propensas a ficar solteiras mais tarde na vida, o que significa que não podem capitalizar recursos compartilhados ou os incentivos financeiros do casamento.

Viver carente de dinheiro e tempo alimenta a procrastinação, o baixo engajamento e a confiança reduzida.

7. Faça conexões profissionais com mulheres incríveis.

É uma forma de reduzir de verdade o preconceito implícito, e não simplesmente mantê-lo em cheque. “

 

Alexandre Teixeira é jornalista e autor do livro Felicidade S.A

Imagem: Pinterest

 

Um comentário

  1. Gostei do texto, embora contenha alguns clichês muito apropriados às opiniões construídas sem rigor epistêmico, ou seja, sem exame mais cuidadoso dos fatos. Ano passado fiz um semestre de estudos com as professoras Dra. Raquel Quirino, orientadora de pós strictus sensus no CEFET-MG e Dra. Marilza, também orientadora de pesquisa na área de graduação da FaE/CBH/UEMG. Coloquei à prova minhas dificuldades de enfrentar meu próprio machismo ao frequentar uma sala cheia de mulheres inteligentes, cônscias de suas feminilidades e atentas a todo e qualquer sinal de preconceito. O tema daquela pesquisa era “A Mulher no Trabalho”. Cuidei de ser mais ouvinte e, depois desses estudos, selecionei cuidadosamente algumas leituras de grandes pensadoras, muitas das quais quase desconhecidas do público em geral, especialmente dos homens e mulheres menos afeitos à reflexão e críticas culturais e sociais. Na aula de encerramento, numa sala do CEFET-MG, apresentei à turma, para uma reflexão final, um poema que escrevi durante o curso. Segue:
    “Zé e Maria

    Maria colhia
    andu no terreiro
    depois, sem descanso,
    no pilão socava
    café pra coar
    e preparava o milho
    pra fazer fubá.

    Varria o alpendre
    e com muito esforço
    tirava do poço
    água de beber
    preparava a janta
    pra suas crianças
    e pro Zé que ficava
    na folga da tarde
    na rede deitado.

    Mas chegou o dia
    que de tanto abusado
    Maria deixou
    o Zé sem guisado
    e à noite no quarto
    sozinho largado.

    Bem feito pro Zé
    que no dia seguinte,
    um tanto amuado,
    correu pro roçado
    buscar melancia
    e no resto do dia
    ao invés da rede
    tratou de tirar
    a água do poço.

    Foi pilar o milho,
    cuidar das crianças
    e no frescor da fonte
    além de banhar-se
    catou umas flores
    e amarrou com embiras
    encheu o chapéu
    com muito araçá
    e ao voltar pra casa
    sorriu pra Maria.”

    Penso que saí bem, especialmente pelo desconforto de ser alvo de qualquer discussão acerca do comportamento machista durante o curso e, por medo de pisar em falso, mais ouvi do que falei. Nas poucas vezes que falei fui bem compreendido e agradeço muito àquelas mulheres pela generosidade de terem me tolerado durante os seis meses do curso.

    No mais, o texto é mais uma reflexão que vale à pena ser tomada em consideração.

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