Projetos de vida e a invenção de uma bela velhice por Mirian Goldenberg (*)

“Simone de Beauvoir foi a minha maior inspiração para escrever sobre a invenção de uma bela velhice. No livro ‘A Velhice’, ela escreveu que velho é sempre o outro, já que as pessoas de mais idade não se enxergam como velhas. Mas ela alertava: velho não é o outro, velho sou eu. Cada um de nós, mesmos os mais jovens, deveria se reconhecer no velho que é hoje ou no velho que será amanhã. O jovem de hoje é o velho de amanhã.

Mesmo revelando a tragédia que é o envelhecimento para quase todos, Simone de Beauvoir apontou um caminho para a invenção de uma bela velhice: ter um projeto de vida.

A obra do psiquiatra austríaco Viktor Frankl é uma referência fundamental para compreender a importância do projeto de vida na invenção de uma bela velhice.

Frankl foi prisioneiro, de 1942 a 1945, em quatro campos de concentração. Sua mãe, seu pai, seu irmão e sua esposa foram assassinados pelos nazistas. Ele se perguntava: Por que eu consegui sobreviver? A resposta que encontrou foi: “Porque eu tinha um projeto de vida”.

Seu projeto era escrever sobre o sofrimento nos campos de concentração e, mais ainda, criar uma terapia baseada nos horrores do Holocausto que ajudasse às pessoas a encontrar o significado das suas vidas.

Ele descobriu que o ser humano tem capacidade de suportar quase tudo se encontrar um sentido para a vida, no amor, no trabalho ou até mesmo no sofrimento inevitável.

Frankl morreu em 1997, aos 92 anos, e mostrou que ter projetos de vida – e dar muitas risadas – são armas poderosas na luta pela sobrevivência.

Zygmunt Bauman afirmou que há dois valores fundamentais para uma vida feliz. Um é a segurança; o outro é a liberdade. Para ele, não seria possível uma vida feliz na ausência de qualquer um dos dois. Segurança sem liberdade é escravidão. Liberdade sem segurança é caos.

No dia 1 de outubro, Dia Internacional do Idoso, é importante lembrar que a invenção de uma bela velhice depende tanto dos nossos projetos de vida quanto da conquista de segurança e de liberdade. A segurança financeira e afetiva produz a liberdade para inventar uma velhice feliz, como disse minha amiga Nalva, de 89 anos:

“Tenho amigos de mais de 80, de mais de 90 anos, que são ativos e independentes. Com saúde, dinheiro suficiente, bons amigos, humor e, principalmente, projetos, dá para viver muito bem em todas as fases da vida. Estou gravando meus CDs, tocando piano, acabei de publicar meu primeiro livro de poesias, tenho muitos projetos. Você gosta de dizer que a velhice é bonita e que velha é linda. Mas quem disse que eu sou velha? Eu estou na flor do outono.”

*Mirian é antropóloga e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro. É autora de ‘Coroas: corpo, envelhecimento, casamento e infidelidade’.

 

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